Capítulo 1 - Queima de Combustível
A tela à frente piscava em vermelho.
Erro de rota: desvio de 0.03 graus.
franziu o cenho, os dedos ágeis voando sobre o teclado do painel de navegação simulado. Cada comando digitado era acompanhado por uma respiração controlada. Três tentativas. Três falhas. O simulador estava instável. Ou, mais provavelmente, alguém havia calibrado errado o sistema de inércia.
— Você tá tentando pilotar ou hackear a estação? — disse uma voz grave e debochada às suas costas.
Ela nem precisou virar para reconhecer. O timbre carregava aquele tom insolente que ela conhecia bem demais.
— Se eu tivesse hackeado, pelo menos estaria funcionando. — respondeu, sem tirar os olhos da tela.
se aproximou, o uniforme escuro colado ao corpo, o emblema da ISA no peito, o típico andar de quem já tinha voado alto demais para se importar com qualquer protocolo. Ele parou ao lado dela, cruzando os braços com teatralidade.
— Engraçado. Quando eu usei esse mesmo painel ontem, ele respondeu perfeitamente.
— Talvez o simulador tenha alergia a testosterona em excesso. — rebateu ela, finalmente virando o rosto para encará-lo.
Olhos nos olhos. Castanhos nos azuis. Um confronto silencioso em plena gravidade terrestre.
sorriu de canto. Devagar. Provocador.
— Ou talvez ele só não funcione bem quando alguém tenta pilotar como se estivesse jogando xadrez.
— Planejar cada movimento antes de agir. Que conceito, não? — deu um passo à frente, o suficiente para que seus ombros quase se tocassem. — Não é culpa minha se você acha que “intuição” é sinônimo de competência.
— E não é culpa minha se você acha que “metodologia” te torna menos humana.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Você tem razão. Ser humana nunca foi meu problema. O problema é ter que trabalhar com um animal impulsivo.
Ele soltou uma risada baixa, carregada de sarcasmo.
— Você devia tentar ser menos fria, . Lá em cima, a cabine compartilha oxigênio. Sentimentos, às vezes, escapam.
— E você devia tentar ser menos previsível, . Já entendi que seu maior talento é fingir que sabe tudo porque sobreviveu a três missões. Mas aqui, agora, você está comigo. E comigo, improviso não substitui preparo.
O silêncio que se seguiu era mais denso do que a atmosfera marciana. a observou por um segundo a mais do que deveria. Havia algo irritantemente preciso na forma como ela se portava. Postura reta, voz firme, olhos que não tremiam — nem mesmo diante dele. E isso, de alguma forma, o deixava inquieto.
— Diga uma coisa, doutora — disse ele, arrastando o título como uma ofensa disfarçada —, sempre teve essa mania de controlar tudo, ou foi alguma falha de infância?
Ela não piscou.
— E você sempre foi esse clichê ambulante ou teve que se esforçar muito pra virar um?
A tensão entre os dois atingia níveis perigosos. Nenhum dos outros astronautas na sala ousava interromper. Dois gigantes duelando sob a luz fria dos painéis LED. Um confronto que todos viam chegar desde o anúncio da missão Aether.
O instrutor entrou naquele momento, ignorando completamente o fogo invisível que queimava no ar.
— Torres e Reed encerraram a simulação com sucesso. Próximo: e .
— Ótimo — murmurou . — Mal posso esperar pra passar as próximas semanas presa com um homem que pensa que sarcasmo é uma ferramenta de navegação.
caminhou até o assento ao lado do dela, sentando-se com um suspiro exagerado.
— Vai ser divertido ver você surtar quando eu resolver alguma pane sem consultar vinte protocolos.
Ela olhou para ele de lado, o maxilar tenso.
— Vai ser ainda mais divertido ver você errar feio por não seguir um único.
A simulação começou. A cabine tremeu levemente quando a projeção visual envolveu a sala. Uma réplica da Aether Station flutuava no painel dianteiro, orbitando acima da Terra. Eles tinham que acoplar um módulo avariado em menos de dez minutos.
digitava comandos meticulosos, cada ação calculada com frieza. , ao lado, alternava entre controles manuais e ajustes improvisados.
— Está puxando demais para bombordo. — ela avisou, seca.
— Estou compensando a falha do propulsor lateral. Já percebi. — Ele apertou um botão antes que ela pudesse impedi-lo.
A cabine virtual vibrou.
Desvio de acoplamento: falha parcial.
fechou os olhos por um segundo. Respirou. Depois se virou devagar, com uma calma que era mais perigosa que um grito.
— Se você encostar de novo em qualquer sistema sem aviso, eu vou te arrancar a mão.
arqueou as sobrancelhas, divertido.
— Tá ameaçando, doutora?
— Tô prometendo.
O instrutor interrompeu pelo alto-falante, tentando manter o tom neutro:
— Ainda estão dentro do tempo. Concentrem-se.
Ela ignorou. Voltou ao painel, ajustando a rota. Silêncio tenso. Até que ele falou, a voz mais baixa, quase rouca.
— Você sabia que me designaram pra essa missão antes de você ser incluída?
Ela hesitou um segundo.
— E deveria me importar?
— Só acho curioso. Você não confia em mim. Mas o comitê confiou.
Ela se virou, olhando fundo nos olhos dele.
— Eu não confio em muita gente. E muito menos em quem acha que erro é charme.
Os dois ficaram ali, se encarando como se quisessem despir a armadura do outro a tapas. Mas por trás da raiva, havia uma tensão diferente. Algo cravado entre os dentes, não dito. Um calor que subia sob a pele de ambos, mesmo sob o frio artificial da sala.
— Vai ser uma longa missão. — ele murmurou, com aquele sorriso cínico nos lábios.
Ela desviou os olhos, os dedos voando pelo teclado com exatidão cirúrgica.
— Vai ser insuportável. — respondeu. — Mas, com sorte, você vai ficar fora do meu campo de visão. Ou de oxigênio.
estava pensativa. Fazia uma semana que descobrira que estaria em uma missão espacial, porém ao lado de , o ser mais desprezível desse planeta, de acordo com ela.
— Você sabe que pode confiar no propulsor auxiliar, né? Ou vai perder meia hora tentando consertar o impossível?
Ela não se deu o trabalho de virar.
— Interessante. De onde você tirou a ideia de que seus palpites são úteis?
se aproximou com aquele sorriso de quem nunca levou nada a sério. Ele era todo desleixo charmoso: barba por fazer, uniforme amarrotado, olhos azuis que pareciam rir até das emergências.
— Do fato de já ter feito isso no espaço real. Três vezes. E sem explodir ninguém. — disse ele, jogando-se na cadeira ao lado da dela.
bufou, ainda digitando.
— Também ouvi dizer que sorte de principiante pode durar algumas missões.
— E ouvi dizer que rigidez demais causa constipação.
Ela finalmente virou, devagar, o olhar afiado como um bisturi.
— Você tem um talento raro, .
— Pra voar? Eu sei.
— Pra falar merda com convicção.
O simulador vibrava ao redor deles. A projeção da estação espacial Aether surgia diante dos dois como uma sombra em rotação. A missão era simples: acoplar um módulo danificado, corrigir a trajetória e manter a integridade estrutural. Um treino. Mas, entre e , até respirar no mesmo ritmo parecia um desafio.
— Está puxando pro lado errado — ela apontou.
— Estou compensando o atraso do giroscópio. Confia em mim.
— Você fala como se isso fosse uma virtude.
— E você como se controle fosse um superpoder.
A simulação tremeu. O painel piscou.
Acoplamento instável. Tempo esgotado.
— Ótimo. — ela murmurou. — Isso vai direto pro relatório.
se levantou antes dela, estalando o pescoço com desdém.
— Me avisa quando parar de querer ser perfeita e começar a pensar como astronauta.
— Me avisa quando parar de agir como um adolescente com joystick.
Antes que ela pudesse deixar a cabine, a porta automática se abriu com um bip seco. Um homem de terno escuro, com o distintivo da ISA reluzindo no peito, entrou com passos decididos. Coronel Ayers. Olhar firme, voz que dispensava rodeios.
— . . Sala 5. Agora.
Os dois trocaram um olhar. Breve. Tenso. Depois seguiram o superior sem palavra alguma, lado a lado, como cães prestes a morder.
A Sala 5 era fria, impessoal. Uma tela exibia a órbita terrestre. Três cadeiras. Uma mesa. Silêncio.
— Sentem-se — disse Ayers, sem rodeios. — Recebemos aprovação do comitê internacional para enviar a missão Vanguard à Aether Station. A partida está prevista para daqui a trinta dias.
inclinou-se levemente.
— E o senhor quer que façamos parte da equipe de apoio?
O coronel a encarou por um segundo antes de responder.
— Não. Vocês dois vão liderar a missão.
Silêncio.
congelou. arqueou uma sobrancelha.
— Desculpa. — disse ele, olhando de para o coronel. — Juntos?
— É uma decisão unânime. Os perfis complementares de vocês foram avaliados. Precisamos de sua experiência, . E da precisão da doutora . Vocês se detestam, eu sei. Mas essa antipatia pessoal vai ter que sair da órbita antes do lançamento.
mordeu a parte interna da bochecha. soltou uma risada curta, sem humor.
— Isso é algum tipo de pegadinha? Porque se for, falta criatividade.
— Não é pegadinha. É uma ordem — respondeu Ayers. — E vocês vão ter duas semanas de treinamentos conjuntos intensivos. A partir de amanhã.
Ele se levantou. A tela atrás dele exibia agora a imagem da cápsula que os levaria ao espaço.
— O planeta está observando. Façam parecer que funciona.
Quando o coronel saiu, deixando-os sozinhos na sala, o silêncio durou exatos cinco segundos.
— Isso é inacreditável. — disse , enfim. — Eu passo anos me preparando, estudando, seguindo cada protocolo, pra ser colocada lado a lado com um maldito kamikaze espacial.
— E eu achando que ia ganhar uma copiloto de verdade, não um robô disfarçado de gente — rebateu .
Ela se virou de frente pra ele, as mãos cruzadas, olhos faiscando.
— Se você acha que pode pilotar essa missão com arrogância e improviso, vai acabar ferrando a si mesmo. E a mim.
— Se você acha que planilhas e cronogramas vão salvar sua pele no vácuo, vai ter um belo choque quando a realidade bater na sua cara.
— Eu prefiro realidade a ego inflado.
— E eu prefiro ação à paralisia por análise.
Eles se encararam, a tensão entre os dois tomando forma no ar. Não era apenas raiva. Era algo mais profundo. Mais denso. Como uma energia gravitacional querendo colapsar os dois para o mesmo ponto.
— Isso vai ser um desastre. — disse , por fim.
se aproximou um passo. Um só. Mas o suficiente.
— Ou a missão mais interessante da sua vida.
Ela sorriu, mas não foi um sorriso simpático.
— Se eu não te matar antes da decolagem, talvez.
Ele sorriu de volta. Lento. Perigoso.
— Você pode tentar, . Mas cuidado pra não se apaixonar no processo.
Ela riu, seca.
— Só se perder o juízo junto com o oxigênio.
Erro de rota: desvio de 0.03 graus.
franziu o cenho, os dedos ágeis voando sobre o teclado do painel de navegação simulado. Cada comando digitado era acompanhado por uma respiração controlada. Três tentativas. Três falhas. O simulador estava instável. Ou, mais provavelmente, alguém havia calibrado errado o sistema de inércia.
— Você tá tentando pilotar ou hackear a estação? — disse uma voz grave e debochada às suas costas.
Ela nem precisou virar para reconhecer. O timbre carregava aquele tom insolente que ela conhecia bem demais.
— Se eu tivesse hackeado, pelo menos estaria funcionando. — respondeu, sem tirar os olhos da tela.
se aproximou, o uniforme escuro colado ao corpo, o emblema da ISA no peito, o típico andar de quem já tinha voado alto demais para se importar com qualquer protocolo. Ele parou ao lado dela, cruzando os braços com teatralidade.
— Engraçado. Quando eu usei esse mesmo painel ontem, ele respondeu perfeitamente.
— Talvez o simulador tenha alergia a testosterona em excesso. — rebateu ela, finalmente virando o rosto para encará-lo.
Olhos nos olhos. Castanhos nos azuis. Um confronto silencioso em plena gravidade terrestre.
sorriu de canto. Devagar. Provocador.
— Ou talvez ele só não funcione bem quando alguém tenta pilotar como se estivesse jogando xadrez.
— Planejar cada movimento antes de agir. Que conceito, não? — deu um passo à frente, o suficiente para que seus ombros quase se tocassem. — Não é culpa minha se você acha que “intuição” é sinônimo de competência.
— E não é culpa minha se você acha que “metodologia” te torna menos humana.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Você tem razão. Ser humana nunca foi meu problema. O problema é ter que trabalhar com um animal impulsivo.
Ele soltou uma risada baixa, carregada de sarcasmo.
— Você devia tentar ser menos fria, . Lá em cima, a cabine compartilha oxigênio. Sentimentos, às vezes, escapam.
— E você devia tentar ser menos previsível, . Já entendi que seu maior talento é fingir que sabe tudo porque sobreviveu a três missões. Mas aqui, agora, você está comigo. E comigo, improviso não substitui preparo.
O silêncio que se seguiu era mais denso do que a atmosfera marciana. a observou por um segundo a mais do que deveria. Havia algo irritantemente preciso na forma como ela se portava. Postura reta, voz firme, olhos que não tremiam — nem mesmo diante dele. E isso, de alguma forma, o deixava inquieto.
— Diga uma coisa, doutora — disse ele, arrastando o título como uma ofensa disfarçada —, sempre teve essa mania de controlar tudo, ou foi alguma falha de infância?
Ela não piscou.
— E você sempre foi esse clichê ambulante ou teve que se esforçar muito pra virar um?
A tensão entre os dois atingia níveis perigosos. Nenhum dos outros astronautas na sala ousava interromper. Dois gigantes duelando sob a luz fria dos painéis LED. Um confronto que todos viam chegar desde o anúncio da missão Aether.
O instrutor entrou naquele momento, ignorando completamente o fogo invisível que queimava no ar.
— Torres e Reed encerraram a simulação com sucesso. Próximo: e .
— Ótimo — murmurou . — Mal posso esperar pra passar as próximas semanas presa com um homem que pensa que sarcasmo é uma ferramenta de navegação.
caminhou até o assento ao lado do dela, sentando-se com um suspiro exagerado.
— Vai ser divertido ver você surtar quando eu resolver alguma pane sem consultar vinte protocolos.
Ela olhou para ele de lado, o maxilar tenso.
— Vai ser ainda mais divertido ver você errar feio por não seguir um único.
A simulação começou. A cabine tremeu levemente quando a projeção visual envolveu a sala. Uma réplica da Aether Station flutuava no painel dianteiro, orbitando acima da Terra. Eles tinham que acoplar um módulo avariado em menos de dez minutos.
digitava comandos meticulosos, cada ação calculada com frieza. , ao lado, alternava entre controles manuais e ajustes improvisados.
— Está puxando demais para bombordo. — ela avisou, seca.
— Estou compensando a falha do propulsor lateral. Já percebi. — Ele apertou um botão antes que ela pudesse impedi-lo.
A cabine virtual vibrou.
Desvio de acoplamento: falha parcial.
fechou os olhos por um segundo. Respirou. Depois se virou devagar, com uma calma que era mais perigosa que um grito.
— Se você encostar de novo em qualquer sistema sem aviso, eu vou te arrancar a mão.
arqueou as sobrancelhas, divertido.
— Tá ameaçando, doutora?
— Tô prometendo.
O instrutor interrompeu pelo alto-falante, tentando manter o tom neutro:
— Ainda estão dentro do tempo. Concentrem-se.
Ela ignorou. Voltou ao painel, ajustando a rota. Silêncio tenso. Até que ele falou, a voz mais baixa, quase rouca.
— Você sabia que me designaram pra essa missão antes de você ser incluída?
Ela hesitou um segundo.
— E deveria me importar?
— Só acho curioso. Você não confia em mim. Mas o comitê confiou.
Ela se virou, olhando fundo nos olhos dele.
— Eu não confio em muita gente. E muito menos em quem acha que erro é charme.
Os dois ficaram ali, se encarando como se quisessem despir a armadura do outro a tapas. Mas por trás da raiva, havia uma tensão diferente. Algo cravado entre os dentes, não dito. Um calor que subia sob a pele de ambos, mesmo sob o frio artificial da sala.
— Vai ser uma longa missão. — ele murmurou, com aquele sorriso cínico nos lábios.
Ela desviou os olhos, os dedos voando pelo teclado com exatidão cirúrgica.
— Vai ser insuportável. — respondeu. — Mas, com sorte, você vai ficar fora do meu campo de visão. Ou de oxigênio.
estava pensativa. Fazia uma semana que descobrira que estaria em uma missão espacial, porém ao lado de , o ser mais desprezível desse planeta, de acordo com ela.
— Você sabe que pode confiar no propulsor auxiliar, né? Ou vai perder meia hora tentando consertar o impossível?
Ela não se deu o trabalho de virar.
— Interessante. De onde você tirou a ideia de que seus palpites são úteis?
se aproximou com aquele sorriso de quem nunca levou nada a sério. Ele era todo desleixo charmoso: barba por fazer, uniforme amarrotado, olhos azuis que pareciam rir até das emergências.
— Do fato de já ter feito isso no espaço real. Três vezes. E sem explodir ninguém. — disse ele, jogando-se na cadeira ao lado da dela.
bufou, ainda digitando.
— Também ouvi dizer que sorte de principiante pode durar algumas missões.
— E ouvi dizer que rigidez demais causa constipação.
Ela finalmente virou, devagar, o olhar afiado como um bisturi.
— Você tem um talento raro, .
— Pra voar? Eu sei.
— Pra falar merda com convicção.
O simulador vibrava ao redor deles. A projeção da estação espacial Aether surgia diante dos dois como uma sombra em rotação. A missão era simples: acoplar um módulo danificado, corrigir a trajetória e manter a integridade estrutural. Um treino. Mas, entre e , até respirar no mesmo ritmo parecia um desafio.
— Está puxando pro lado errado — ela apontou.
— Estou compensando o atraso do giroscópio. Confia em mim.
— Você fala como se isso fosse uma virtude.
— E você como se controle fosse um superpoder.
A simulação tremeu. O painel piscou.
Acoplamento instável. Tempo esgotado.
— Ótimo. — ela murmurou. — Isso vai direto pro relatório.
se levantou antes dela, estalando o pescoço com desdém.
— Me avisa quando parar de querer ser perfeita e começar a pensar como astronauta.
— Me avisa quando parar de agir como um adolescente com joystick.
Antes que ela pudesse deixar a cabine, a porta automática se abriu com um bip seco. Um homem de terno escuro, com o distintivo da ISA reluzindo no peito, entrou com passos decididos. Coronel Ayers. Olhar firme, voz que dispensava rodeios.
— . . Sala 5. Agora.
Os dois trocaram um olhar. Breve. Tenso. Depois seguiram o superior sem palavra alguma, lado a lado, como cães prestes a morder.
A Sala 5 era fria, impessoal. Uma tela exibia a órbita terrestre. Três cadeiras. Uma mesa. Silêncio.
— Sentem-se — disse Ayers, sem rodeios. — Recebemos aprovação do comitê internacional para enviar a missão Vanguard à Aether Station. A partida está prevista para daqui a trinta dias.
inclinou-se levemente.
— E o senhor quer que façamos parte da equipe de apoio?
O coronel a encarou por um segundo antes de responder.
— Não. Vocês dois vão liderar a missão.
Silêncio.
congelou. arqueou uma sobrancelha.
— Desculpa. — disse ele, olhando de para o coronel. — Juntos?
— É uma decisão unânime. Os perfis complementares de vocês foram avaliados. Precisamos de sua experiência, . E da precisão da doutora . Vocês se detestam, eu sei. Mas essa antipatia pessoal vai ter que sair da órbita antes do lançamento.
mordeu a parte interna da bochecha. soltou uma risada curta, sem humor.
— Isso é algum tipo de pegadinha? Porque se for, falta criatividade.
— Não é pegadinha. É uma ordem — respondeu Ayers. — E vocês vão ter duas semanas de treinamentos conjuntos intensivos. A partir de amanhã.
Ele se levantou. A tela atrás dele exibia agora a imagem da cápsula que os levaria ao espaço.
— O planeta está observando. Façam parecer que funciona.
Quando o coronel saiu, deixando-os sozinhos na sala, o silêncio durou exatos cinco segundos.
— Isso é inacreditável. — disse , enfim. — Eu passo anos me preparando, estudando, seguindo cada protocolo, pra ser colocada lado a lado com um maldito kamikaze espacial.
— E eu achando que ia ganhar uma copiloto de verdade, não um robô disfarçado de gente — rebateu .
Ela se virou de frente pra ele, as mãos cruzadas, olhos faiscando.
— Se você acha que pode pilotar essa missão com arrogância e improviso, vai acabar ferrando a si mesmo. E a mim.
— Se você acha que planilhas e cronogramas vão salvar sua pele no vácuo, vai ter um belo choque quando a realidade bater na sua cara.
— Eu prefiro realidade a ego inflado.
— E eu prefiro ação à paralisia por análise.
Eles se encararam, a tensão entre os dois tomando forma no ar. Não era apenas raiva. Era algo mais profundo. Mais denso. Como uma energia gravitacional querendo colapsar os dois para o mesmo ponto.
— Isso vai ser um desastre. — disse , por fim.
se aproximou um passo. Um só. Mas o suficiente.
— Ou a missão mais interessante da sua vida.
Ela sorriu, mas não foi um sorriso simpático.
— Se eu não te matar antes da decolagem, talvez.
Ele sorriu de volta. Lento. Perigoso.
— Você pode tentar, . Mas cuidado pra não se apaixonar no processo.
Ela riu, seca.
— Só se perder o juízo junto com o oxigênio.
Capítulo 2 - Órbita de Colisão
O cronômetro piscava em vermelho no topo da tela.
00:14:59.
ajustou a braçadeira de contenção, sentindo o plástico pressionar seu antebraço. O módulo de simulação de gravidade zero girava lentamente, como um cilindro metálico suspenso no meio do nada. Ela odiava esse exercício — não pela dificuldade técnica, mas pela companhia.
já estava lá dentro, preso ao outro lado da cápsula, com aquele maldito sorriso de quem achava graça até do vácuo.
— Quinze minutos pra instalar os cabos de energia. — informou o instrutor pelo alto-falante. — Trabalhem em dupla. Coordenação é essencial.
respirou fundo. Dupla. A palavra soava como sentença.
— Não se preocupe, doutora. — disse , ajustando as luvas com exagero teatral. — Prometo não te deixar à deriva. Pelo menos não nos primeiros cinco minutos.
— Se você conseguir não soltar nenhuma piada idiota até o final, já vai ser seu maior feito da semana. — ela retrucou, prendendo o cabelo sob o capacete transparente.
O compartimento pressurizou com um chiado. O painel acendeu em verde.
Início da simulação.
Assim que o piso magnético se desligou, os corpos perderam a gravidade. flutuou com controle milimétrico, usando os cabos-guia. , ao contrário, se lançou como se estivesse mergulhando num lago invisível, girando o corpo com leveza.
— Você parece um peixe fora d’água. — ela comentou, já conectando o primeiro cabo ao painel lateral.
— E você parece alguém que esqueceu que estamos flutuando, não marchando num desfile. — ele rebateu, aproximando-se dela de propósito.
O espaço entre os dois diminuiu demais. prendeu o ar quando o ombro dele quase encostou no dela.
Ela não desviou. Ele também não. E por um instante, o silêncio da simulação pareceu mais denso que qualquer atmosfera.
🚀🚀🚀
O alarme soou, encerrando a simulação. As luzes da cabine voltaram ao branco frio da base. soltou o cabo-guia e respirou fundo, tentando dissipar a tensão que ainda vibrava sob a pele. apenas esticou os braços, como se tivesse acabado de sair de um mergulho refrescante.
— Mais um treino concluído. — ele murmurou, olhando para ela com aquele maldito meio-sorriso. — E você ainda tem todas as mãos intactas. Estou me superando.
ignorou a provocação, mas o maxilar travado entregava a raiva.
Poucos minutos depois, ambos seguiam pelos corredores metálicos até a cápsula central. O espaço circular, apertado, reunia os membros da tripulação ao redor de uma mesa fixa no chão. Telas holográficas projetavam diagramas da Aether Station, piscando em azul.
O Coronel Ayers já os esperava. Braços cruzados, postura ereta.
— Sentem-se. — Eles obedeceram, lado a lado, ainda que qualquer proximidade fosse insuportável. — A missão Vanguard exige coordenação total. — disse o coronel. — Vocês dois vão liderar não apenas a pilotagem, mas também a integração de sistemas. Portanto, quero ouvir sugestões.
se adiantou, abrindo o holograma de rota.
— Proponho reforçar a redundância dos propulsores auxiliares. O simulador mostrou instabilidade, e se perdermos alinhamento orbital sem contingência, podemos ter um colapso. — balançou a cabeça devagar, o sorriso insolente surgindo.
— Claro, doutora. Mais redundância, mais protocolos, mais tempo gasto revisando planilhas. Enquanto isso, se surgir uma pane real, a estação já teria dado três voltas ao redor da Terra antes de você terminar a checklist. — virou lentamente o rosto para ele, olhos faiscando.
— Prefiro perder três voltas do que perder a missão inteira por causa de um improviso mal calculado.
— E eu prefiro ter uma missão viva com improviso, do que uma tripulação morta seguindo o manual. — ele rebateu, firme, encarando-a sem piscar.
O coronel pigarreou, mas não interrompeu. Os outros tripulantes trocavam olhares desconfortáveis, como espectadores de um duelo silencioso.
— Vocês dois entendem o que está em jogo? — Ayers, finalmente, interveio. — A Vanguard não pode ser sobre egos. Ou trabalham juntos, ou não decolam.
O silêncio pesou na cápsula. mantinha a postura ereta, como se fosse parte da própria cadeira. reclinava de propósito, exibindo descaso, mas os dedos tamborilando na mesa denunciavam a inquietação.
— Está claro. — disse, seca.
— Cristalino. — completou, com uma ironia que só ela entendeu.
Quando a reunião terminou, os dois se levantaram quase ao mesmo tempo, e o choque de ombros foi inevitável.
— Você vai acabar me ouvindo, . — sussurrou, baixa o bastante para ninguém perceber.
— Engraçado… eu ia dizer exatamente o mesmo pra você. — ele respondeu, a voz grave como um desafio.
●●●
A tarde foi dedicada ao treinamento de evacuação em módulo de emergência. Um espaço claustrofóbico, sem janelas, projetado para comportar no máximo quatro pessoas. O instrutor anunciou que fariam o exercício em duplas. E, claro, não houve sorteio.
lançou um olhar gélido quando entrou logo atrás dela na cápsula.
— Você realmente atrai o azar.
— Eu prefiro chamar de destino. — ele respondeu, prendendo o cinto com um estalo alto. — O universo quer que a gente se dê bem.
Ela bufou, ajeitando os controles da simulação.
— O universo vai ter que se contentar com a gente se tolerando.
As luzes se apagaram. A cápsula chacoalhou levemente, simulando desprendimento da estação. A voz metálica do sistema ecoou:
— Falha no sistema de suporte de vida. Oxigênio em 60%. Cooperação obrigatória.
estendeu a mão para o painel superior.
— Eu cuido do fluxo de ar.
— Nem pense. — rebateu, subindo na cadeira para alcançar primeiro.
No aperto da cápsula, o movimento a fez escorregar. a segurou pelo braço antes que ela batesse contra a parede metálica. O contato foi rápido, mas quente demais para ser ignorado.
— Cuidado, doutora. — ele disse, baixo, perto demais da orelha dela. — A gente ainda precisa de você consciente.
Ela se desvencilhou com um puxão seco.
— Me solta. Eu não preciso de babá.
Voltaram ao painel, disputando espaço ombro a ombro, cada um puxando um cabo, ajustando válvulas, quase derrubando o outro. A respiração acelerada ecoava dentro da cápsula, misturada ao chiado artificial do ar rarefeito.
— Nível de oxigênio: 40%.
— Você tá fechando a válvula errada! — explodiu.
— Estou estabilizando a pressão! — rebateu, girando o comando com força. — Confia em mim.
— Eu já disse que não confio.
Um estalo metálico ecoou. A cápsula tremeu. As luzes de emergência ficaram vermelhas. prendeu a respiração por um segundo, tentando entender o que tinha acontecido. se virou para ela, o rosto próximo demais, olhos azuis faiscando no escuro.
— Então vai ter que aprender.
00:14:59.
ajustou a braçadeira de contenção, sentindo o plástico pressionar seu antebraço. O módulo de simulação de gravidade zero girava lentamente, como um cilindro metálico suspenso no meio do nada. Ela odiava esse exercício — não pela dificuldade técnica, mas pela companhia.
já estava lá dentro, preso ao outro lado da cápsula, com aquele maldito sorriso de quem achava graça até do vácuo.
— Quinze minutos pra instalar os cabos de energia. — informou o instrutor pelo alto-falante. — Trabalhem em dupla. Coordenação é essencial.
respirou fundo. Dupla. A palavra soava como sentença.
— Não se preocupe, doutora. — disse , ajustando as luvas com exagero teatral. — Prometo não te deixar à deriva. Pelo menos não nos primeiros cinco minutos.
— Se você conseguir não soltar nenhuma piada idiota até o final, já vai ser seu maior feito da semana. — ela retrucou, prendendo o cabelo sob o capacete transparente.
O compartimento pressurizou com um chiado. O painel acendeu em verde.
Início da simulação.
Assim que o piso magnético se desligou, os corpos perderam a gravidade. flutuou com controle milimétrico, usando os cabos-guia. , ao contrário, se lançou como se estivesse mergulhando num lago invisível, girando o corpo com leveza.
— Você parece um peixe fora d’água. — ela comentou, já conectando o primeiro cabo ao painel lateral.
— E você parece alguém que esqueceu que estamos flutuando, não marchando num desfile. — ele rebateu, aproximando-se dela de propósito.
O espaço entre os dois diminuiu demais. prendeu o ar quando o ombro dele quase encostou no dela.
Ela não desviou. Ele também não. E por um instante, o silêncio da simulação pareceu mais denso que qualquer atmosfera.
O alarme soou, encerrando a simulação. As luzes da cabine voltaram ao branco frio da base. soltou o cabo-guia e respirou fundo, tentando dissipar a tensão que ainda vibrava sob a pele. apenas esticou os braços, como se tivesse acabado de sair de um mergulho refrescante.
— Mais um treino concluído. — ele murmurou, olhando para ela com aquele maldito meio-sorriso. — E você ainda tem todas as mãos intactas. Estou me superando.
ignorou a provocação, mas o maxilar travado entregava a raiva.
Poucos minutos depois, ambos seguiam pelos corredores metálicos até a cápsula central. O espaço circular, apertado, reunia os membros da tripulação ao redor de uma mesa fixa no chão. Telas holográficas projetavam diagramas da Aether Station, piscando em azul.
O Coronel Ayers já os esperava. Braços cruzados, postura ereta.
— Sentem-se. — Eles obedeceram, lado a lado, ainda que qualquer proximidade fosse insuportável. — A missão Vanguard exige coordenação total. — disse o coronel. — Vocês dois vão liderar não apenas a pilotagem, mas também a integração de sistemas. Portanto, quero ouvir sugestões.
se adiantou, abrindo o holograma de rota.
— Proponho reforçar a redundância dos propulsores auxiliares. O simulador mostrou instabilidade, e se perdermos alinhamento orbital sem contingência, podemos ter um colapso. — balançou a cabeça devagar, o sorriso insolente surgindo.
— Claro, doutora. Mais redundância, mais protocolos, mais tempo gasto revisando planilhas. Enquanto isso, se surgir uma pane real, a estação já teria dado três voltas ao redor da Terra antes de você terminar a checklist. — virou lentamente o rosto para ele, olhos faiscando.
— Prefiro perder três voltas do que perder a missão inteira por causa de um improviso mal calculado.
— E eu prefiro ter uma missão viva com improviso, do que uma tripulação morta seguindo o manual. — ele rebateu, firme, encarando-a sem piscar.
O coronel pigarreou, mas não interrompeu. Os outros tripulantes trocavam olhares desconfortáveis, como espectadores de um duelo silencioso.
— Vocês dois entendem o que está em jogo? — Ayers, finalmente, interveio. — A Vanguard não pode ser sobre egos. Ou trabalham juntos, ou não decolam.
O silêncio pesou na cápsula. mantinha a postura ereta, como se fosse parte da própria cadeira. reclinava de propósito, exibindo descaso, mas os dedos tamborilando na mesa denunciavam a inquietação.
— Está claro. — disse, seca.
— Cristalino. — completou, com uma ironia que só ela entendeu.
Quando a reunião terminou, os dois se levantaram quase ao mesmo tempo, e o choque de ombros foi inevitável.
— Você vai acabar me ouvindo, . — sussurrou, baixa o bastante para ninguém perceber.
— Engraçado… eu ia dizer exatamente o mesmo pra você. — ele respondeu, a voz grave como um desafio.
A tarde foi dedicada ao treinamento de evacuação em módulo de emergência. Um espaço claustrofóbico, sem janelas, projetado para comportar no máximo quatro pessoas. O instrutor anunciou que fariam o exercício em duplas. E, claro, não houve sorteio.
lançou um olhar gélido quando entrou logo atrás dela na cápsula.
— Você realmente atrai o azar.
— Eu prefiro chamar de destino. — ele respondeu, prendendo o cinto com um estalo alto. — O universo quer que a gente se dê bem.
Ela bufou, ajeitando os controles da simulação.
— O universo vai ter que se contentar com a gente se tolerando.
As luzes se apagaram. A cápsula chacoalhou levemente, simulando desprendimento da estação. A voz metálica do sistema ecoou:
— Falha no sistema de suporte de vida. Oxigênio em 60%. Cooperação obrigatória.
estendeu a mão para o painel superior.
— Eu cuido do fluxo de ar.
— Nem pense. — rebateu, subindo na cadeira para alcançar primeiro.
No aperto da cápsula, o movimento a fez escorregar. a segurou pelo braço antes que ela batesse contra a parede metálica. O contato foi rápido, mas quente demais para ser ignorado.
— Cuidado, doutora. — ele disse, baixo, perto demais da orelha dela. — A gente ainda precisa de você consciente.
Ela se desvencilhou com um puxão seco.
— Me solta. Eu não preciso de babá.
Voltaram ao painel, disputando espaço ombro a ombro, cada um puxando um cabo, ajustando válvulas, quase derrubando o outro. A respiração acelerada ecoava dentro da cápsula, misturada ao chiado artificial do ar rarefeito.
— Nível de oxigênio: 40%.
— Você tá fechando a válvula errada! — explodiu.
— Estou estabilizando a pressão! — rebateu, girando o comando com força. — Confia em mim.
— Eu já disse que não confio.
Um estalo metálico ecoou. A cápsula tremeu. As luzes de emergência ficaram vermelhas. prendeu a respiração por um segundo, tentando entender o que tinha acontecido. se virou para ela, o rosto próximo demais, olhos azuis faiscando no escuro.
— Então vai ter que aprender.
Continua...
Nota da autora: Sem nota.
Outras Fanfics:
MV: Fire 03. Push & Pull
10. Games
14. Never Let You Go
06. Conexxion
10. Vroom
01. Obsession
07. Lovin You Mo'
04. 134340
Feche a Porta
À Primeira Vista
Um Verão Inesquecível
Confissões de Prazer
O Melhor de Mim
In The Air
Um Abismo entre Nós
Bound by the Crown
Unwritten Rendezvous
Outras Fanfics:
MV: Fire 03. Push & Pull
10. Games
14. Never Let You Go
06. Conexxion
10. Vroom
01. Obsession
07. Lovin You Mo'
04. 134340
Feche a Porta
À Primeira Vista
Um Verão Inesquecível
Confissões de Prazer
O Melhor de Mim
In The Air
Um Abismo entre Nós
Bound by the Crown
Unwritten Rendezvous
